27 de set. de 2009

Depoimento



Ainda bem. Imagina se eu tivesse ficado preso na perda de 2 anos atrás. Mas tem uma certeza: a de que passou o tempo de escrever só sobre a perda. Porque passou mesmo. Não teria sentido ficar dois anos escrevendo sobre um sentimento que ficou prá trás, só para ficar comovendo as pessoas.

Ao longo desse tempo, infelizmente, percebi que muitas pessoas que estavam próximas de mim na época da morte dela se afastaram de mim quando as coisas entraram nos eixos. Até mesmo algumas pessoas próximas parecem não ter se dado conta.

Acho que incomodei e continuo incomodando ao trocar a tristeza por uma alegria exuberante ao ver como a vida pode nos dar coisas lindas depois de nos tirar outras tantas. Entendi há pouco o sentido na frase de Nelson Rodrigues: "... o mineiro só é solidário no câncer".

As pessoas têm mais dificuldade em nos ver alegres, em evidência e chamando a atenção. Não estão tão preparadas para isso como estão para nos ajudar no meio da tragédia.

20 de set. de 2009

Civilização


Em que reside o valor peculiar das idéias religiosas?

A civilização exerce uma pressão pelas renúncias do instinto animal. Se imaginarmos suspensas as suas proibições e se então se pudesse tomar a mulher que se quisesse como objeto sexual; se fosse possível matar sem hesitação o rival ao amor dela ou qualquer pessoa que se colocasse no caminho, e se, também, se pudesse levar consigo qualquer dos pertences de outro homem sem pedir licença, quão esplêndida, que sucessão de satisfações seria a vida!

A verdade é que logo nos deparamos com a primeira dificuldade: todos os outros têm exatamente os mesmos desejos que eu, e não me tratarão com mais consideração do que eu os trato. Assim, na realidade, só uma única pessoa se poderia tornar irrestritamente feliz através de uma tal remoção das restrições da civilização, e essa pessoa seria um tirano, um ditador, que se tivesse apoderado de todos os meios de poder.

O que então restaria seria um estado de natureza, muito mais difícil de suportar. É verdade que a natureza não exigiria de nós quaisquer restrições dos instintos, nos deixaria proceder como bem quisés­semos; contudo, ela possui seu próprio método, particularmente eficiente, de nos coibir. Ela nos destrói, fria, cruel e incansavelmente. Foi precisamente por causa dos perigos com que a natureza nos ameaça que nos reunimos e criamos a civilização, a qual também, entre outras coisas, se destina a tornar possível nossa vida comunal, pois a principal missão da civilização é nos defender contra a natureza.

Todos sabemos que, de diversas maneiras, a civilização já faz isso bastante bem, e é claro que, na medida em que o tempo passa, o fará muito melhor. Ninguém, no entanto, alimenta a ilusão de que a natureza já foi vencida, e poucos se atrevem a ter esperanças de que um dia ela se submeta inteiramente ao homem. Há os elementos, que parecem não se submeter a qual­quer controle humano: a terra, que treme, se escancara e sepulta toda a vida humana e suas obras; a água, que inunda e afoga tudo num torvelinho; as tempestades, que arrastam tudo o que se lhes antepõe e, finalmente, o penoso enigma da morte, contra o qual remédio algum foi encontrado e provavelmente nunca será. É com essas forças que a natureza se ergue contra nós, majestosa, cruel e inexorável; uma vez mais nos traz à mente nossa fraqueza e desamparo, de que pensávamos ter fugido através do trabalho de civilização.

Tal como para a humanidade em geral, também para o indivíduo a vida é difícil de suportar. A civilização de que participa impõe-lhe uma certa quantidade de privação, e outros homens lhe trazem outro tanto de sofrimen­to, seja apesar dos preceitos de sua civilização, seja por causa das imperfei­ções dela. A isso se acrescentam os danos que a natureza indomada, o que ele chama de Destino, lhe inflige.

Muito já se conseguiu com um primeiro passo: a humanização da natureza. De forças e destinos impessoais ninguém pode aproximar-se; permanecem vividamente distantes. Contudo, se nos elementos se enfurecerem paixões da mesma forma que em nossas próprias almas, se a própria morte não for algo espontâneo, mas o ato violento de uma Vontade maligna, se tudo na natureza forem Seres à nossa volta, do mesmo tipo que conhecemos em nossa própria sociedade, então poderemos respirar livremente, sentir-nos em casa no sobrenatural e lidar com nossa insensata ansiedade através de meios psíquicos.

Contra esses violentos super-homens externos podemos aplicar os mesmos métodos que empregamos em nossa própria sociedade; podemos tentar conjurá-los, apaziguá-los, suborná-los e, influenciando-os assim, despojá-los de uma parte de seu poder.

No decorrer do tempo, fizeram-se as primeiras observações de regulari­dade e conformidade à lei nos fenômenos naturais, e, com isso, as forças da natureza perderam seus traços humanos. O desamparo do homem, porém, permanece e, junto com ele, seu anseio pelo pai e pelos deuses. Estes mantêm sua tríplice missão: exorcizar os terrores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do Destino, particularmente a que é demonstrada na morte, e compensá-tos pelos sofrimentos e privações que uma vida civilizada em comum lhes impôs.

Ficou sendo então tarefa dos deuses nivelar os defeitos e os males da civilização, assistir os sofrimentos que os homens infligem uns aos outros em sua vida em conjunto e vigiar o cumprimento dos preceitos da civilização, a que os homens obedecem de modo tão imperfeito. Esses próprios preceitos foram creditados com uma origem divina; foram elevados além da sociedade humana e estendidos à natureza e ao universo.

Foi assim que se criou um cabedal de idéias, nascido da necessidade que tem o homem de tornar tolerável seu desamparo, e construído com o material das lembranças do desamparo de sua própria infância e da infância da raça humana. Pode-se perceber claramente que a posse dessas idéias o protege em dois sentidos: contra os perigos da natureza e do Destino, e contra os danos que o ameaçam por parte da própria sociedade humana. (Freud)

30 de ago. de 2009

Viscosidade e Velocidade

Uma indicação da habilidade de algum conhecimento lidar com a complexidade é o quanto de experiência prática e fatos reais ele contém.

O conhecimento não é uma estrutura rígida que exclui o que não se encaixa; ele apenas se torna mais complexo para lidar com a complexidade. Embora seja tentador procurar por respostas simples para problemas complexos e lidar com as complexidades como se elas não existissem, conhecer mais e melhor geralmente leva a decisões melhores, mesmo que abordagens mais enxutas pareçam ser mais claras e definitivas.

Certeza e clareza geralmente custam o preço de ignorar fatores essenciais: isso porque aprendemos com o tempo que o certo e o errado convivem juntos. Confiar num simples conjunto de dados sem contradição pode dar a sensação de domínio, mas como esses dados tem algum ponto fraco desconhecido, eles desmoronam subitamente, sem aviso.

Um ponto interessante na transferência de conhecimento é o compromisso entre velocidade e viscosidade. Velocidade refere-se ao quanto rapidamente aquilo se espalha, enquanto viscosidade refere-se à riqueza de conhecimento transferido.

O método de transferência tem muita influência na viscosidade: o aprendizado por absorção e observação é muito mais rico (e lento) do que a transferência através da leitura de um artigo na internet. Se considerarmos que um aprendizado genuíno compreende não somente a absorção de conhecimento mas também a sua aceitação envolvendo processos pessoais e muitos fatores psicologicos, então podemos imaginar o quanto a riqueza no conteúdo é importante para a efetividade do aprendizado. E geralmente o que aumenta a velocidade diminui a viscosidade.

O que resta imaginar é qual será o resultado dessa nova combinação que a moderna tecnologia trás, onde uma velocidade imensa vem junto com pouca riqueza de conhecimento. As mentes do futuro vão operar sob um novo paradigma? Ou a transmissão de conhecimento por absorção vai continuar forte, mas menos visível?

21 de ago. de 2009

Artimanha

Há basicamente duas concepções sobre trapacear. Uma delas assume que as pessoas são fundamentalmente desonestas e buscam continuamente oportunidades para trapacear, baseado numa análise de custo-benefício da ação.

A segunda possibilidade nos diz que as pessoas são basicamente honestas, mas circunstâncias tentadores fazem-nas trapacear: "emprestam" uma caneta numa conferência, reportam um almoço de negócios com a namorada.

Qual tipo prevalece e o que os motiva?

Experimentos controlados mostram que as pessoas trapaceiam ligeiramente sempre que podem. Curiosamente o risco de serem pegas não influencia tanto a tendência de trapacear quanto lembrá-las, logo de início, de seus códigos morais. Algo como começar assinando e depois preencher uma declaração de condições de saúde para um plano médico. Isso diminui consideravelmente a disposição para trapacear.

Finalmente, temos uma incrível capacidade de racionalizar nossa desonestidade e justificar o que fizemos em casos onde o benefício está indiretamente ligado a dinheiro vivo.

Ou seja, as trocas não-monetárias parecem dar uma folga psicológica maior para, por exemplo, conseguirmos burlar documentos e fazer acordos pessoais suspeitos.

E o que acontece quando pessoas colaboram num trabalho em grupo? Será que times autônomos são mais éticos que pessoas agindo individualmente? Infelizmente os experimentos mostram que os grupos se comportam de maneira ainda mais leviana, especialmente se percebem que qualquer trapaça individual vai trazer ganhos para todos e se isso for visível para o grupo. É como se trapacear fosse contagioso...

Embora grupos de trabalho tenham muitas vantagens do ponto de vista social e funcional, eles são mais vulneráveis a condutas pouco éticas, principalmente se forem grupos com pouca supervisão.

15 de ago. de 2009

Verdade

Para a certeza o desconhecido é irrelevante. Para a verdade, o desconhecido é justamente o que importa.

Quando é que você crê numa verdade? Toda a verdade eu só acredito por que inicialmente ela é uma verdade de outro. Eu acredito na verdade através do outro. O outro que acredita é que me disse. E essa estrutura de crença não é abalada pela minha dúvida particular.

As crenças religiosas são assim. A dúvida sempre paira sobre qualquer religioso, mas a crença na verdade espiritual se sustenta por que há um outro que crê. Isso foi fundamental no cristianismo, onde houve um primeiro que deu prova de crer.

O serviço da crença é depositar no outro uma última instância nessa possibilidade de crer, e nesse sentido é preciso entender que até mesmo algum sofrimento maior já terá sido pago por esses “outros”, e eu posso sofrer apenas parcialmente.

Quando Descartes ousou trocar a verdade pela certeza científica, propondo que acreditássemos apenas naquilo que pudesse ser provado, provocou uma troca no modo de crer pois passamos a acreditar em tudo sozinhos, a sofrer tudo sozinhos.

Isso quer dizer que trazer a certeza do mundo das medidas para a nosso mundo pessoal trás uma sobrecarga imensa, ao nos desumanizar tentando nos definir de maneira exaustiva, sem margens de manobra.

Precisamos sempre de espaço para nos redefinir. E a certeza científica não nos dá isso. Esse é um serviço da verdade.

9 de ago. de 2009

Corpo

Cada cultura cria seu resto de vida e dá um estatuto ao corpo. E a afirmação do sujeito passa por lidar com o resto da vida.

Na Grécia se pensava a vida como sendo de dois tipos: zoe, a vida animal, com seus excessos, e o bios, que era a vida política, qualificada, favorita.

A bios significava cultivar as boas condutas para manter a virtude essencial de fazer viver a pólis democrática. A zoe, ao contrário, aparecia como aquilo que é um resto, como indiscriminado e que deveria ser evitado aparecer publicamente, para ser objeto de ascese e melhora, pois essa animalidade e seus excessos era entendida como uma escravidão às necessidades, como uma vida menor. Isso era um resto da vida que precisava ser oculto.

O corpo não era significativo, o soma, nada dizia à vida. Corpo era ligado apenas à escravidão como vida indefinida no mundo das necessidades.

Passando para os romanos, vemos que foram grandes guerreiros, administradores, comerciantes e juristas, mas pouco políticos e filósofos.
Os romanos traduziram o zoe e a bios gregas em uma só coisa, a vita. A vida digna e indigna entrou para o domínio jurídico e apareceu a figura do homo sacer, que era aquele patrício banido com corpo mas sem vida política. Não podia participar da cidadania e podia ser morto sem que isso configurasse um crime. Ele existia para poder afirmar o absoluto poder do governante, que escolhia quem banir. Ele era o representante do resto da vida a ser eliminado publicamente.

Com o advento do cristianismo, consagra-se a idéia da sacralidade de qualquer vida – agora dividida em vida na graça do espírito ou no pecado da carne. O resto da vida cristã é o excesso do amor divino, solicitando sempre a sermos mais do que somos, lidando com algo insondável, algo indizível. A minha vida como uma doação divina, revela ao mesmo tempo um divino que não cabe nela.

Por esse caminho, o cristianismo, ao contrário de outras religiões étnicas ou de casta, provou-se universal pois a vida era concebida de forma que nem em toda a humanidade Deus caberia. Era algo para judeus, gregos, adúlteros, fariseus, ricos, pobres, aleijados, enfim para todos. E qualquer vida pequena poderia fazer parte da grande vida espiritual, do grande rebanho. E eternamente a espera da pergunta: o que o outro quer? O que o outro deseja? E com isso, ao contrário de ter uma existência plena como os gregos e os romanos que opunham a vida a um resto menor, passamos a ter uma existência sempre em falta, angustiada, neurótica.

Com o racionalismo da modernidade, o corpo passa a ditar o que é a vida e não mais a vida a dizer o que pode ser o corpo. E os políticos, por outro lado, tiraram Deus da vida pública, permitindo-o apenas na vida privada. Cada um passa a ser responsável por si, e o corpo sendo a nossa primeira propriedade, justifica todas as outras posses decorrentes.

Nessa ênfase particular do indivíduo e para garantir a ordem pública, criaram-se mecanismos de controle demográfico tornando-o o corpo domesticável, até certo ponto. O restos da vida passaram a ser os loucos, os indignos, os não enquadrados nas regras sociais. Então, a vida conforme a razão também deixa suas rebarbas, às vezes irrecuperáveis.

1 de ago. de 2009

Medo

Devemos gastar quantidades enormes de energia para conseguir viver todos os dias sem sermos atormentados pela consciência de que a qualquer momento algo pode dar errado. Essa consciência não pode simplesmente vir à tona, senão ficaríamos paralisados diante do pânico. Quem mente melhor sobrevive, quem fica paralisado diante desse medo, morre.

O principal afeto do humano é o medo. Afinal, não fabricamos veneno, não conseguimos voar, não conseguimos morder um bicho vivo, temos um tamanho desengonçado, não enxergamos bem , não ouvimos bem: tudo que temos é pensar. E pensar é o nosso grande barato: essa capacidade de observar o meio ambiente e tomar consciência disso é que nos permite ver lá adiante que não vai dar certo...

Entretanto, continuamos a viver: comemos, viajamos, namoramos, não paramos a vida por causa disso. Quem paralisa, com pânico, é porque está com falhas em sua estrutura de proteção, está deixando aparecer esse medo embutido e profundo de existir. No ser normal estão presentes inconscientemente o temor da morte e o esquecimento consciente disso.

Isso tudo nos leva para a verdadeira condição humana, que é a de um náufrago. Você só cresce e vira gente quando toma consciência de que você já perdeu. Enquanto não se tem essa consciência não se está de fato aqui. Um náufrago não está morto, mas ele está jogado no mundo e não sabe bem onde e nem como sair disso.

O naufrágio é uma profunda experiência de gozo de estar vivo, mas que o tempo todo está sendo erodido, frustrado e que exige cada vez mais esforço de negação disso. Mas é o que somos.

É difícil pensar. Mais comum é sedar a consciência, invejar o que parece estar bem: fazer a comunhão com a natureza, com os animais, com a casinha no campo.

Descobrir que o universo não foi feito para ser o nosso berço é uma experiência profundamente humana: só um louco não tem medo.

25 de jul. de 2009

Fantasias

É muito comum meninos novos construirem imaginariamente uma outra família para si. Isso acontece quando eles descobrem que seus pais não são tão poderosos como imaginado, que eles têm falhas em sua potência. Daí, imaginam seus pais como reis e rainhas poderosos. Logo depois essa fantasia se modifica e ele se imagina como filho de outro homem poderoso, mas mantendo a sua mãe original.

Suas fantasias passam a ligar esses dois personagens pelo resto da vida, e podem explicar os estranhos desejos, às vezes incompreensíveis para as mulheres: as fantasias masculinas onde eles oferecem suas mulheres para outros homens. Essas fantasias estão unindo a mulher, no papel de mãe, à outro macho mais poderoso, no papel de substituto do pai.

Essa fantasia, embora pareça terrível é muito mais razoável que o avesso dela, representada pelo homem ciumento que não suporta pensar em sua mulher sendo cortejada por outros homens mais fortes. Enquanto o primeiro faz uma festa com essa fantasia, o segundo sofre crises que podem levar à sua própria aniquilação.

Isso é realmente fantástico, quando descobrimos lugares onde a fantasia torna-se realidade com homens oferecendo explicitamente suas mulheres a outros homens, primeiro visualmente, depois fisicamente, mas considerando sempre a si próprios como controladores da situação. Isto não está ligado a práticas de swing, pois não há troca de parceiros, mas sim a exibição de uma ligação entre um macho beta que se coloca numa posição submissa em relação a outro macho alfa dominador.

Como fica então a ligação disso tudo com a questão da fidelidade? Será que ela é possível de existir se até em fantasias isso é colocado à prova?

Será que viver a dois é mais que um ideal de fidelidade, mas é um ideal de companheirismo, onde cada um concorda em prover ao outro meios para que ambos deem o máximo de si em suas vidas?

Se for assim, pode-se dizer que esse ideal de companheirismo é algo só moderno, pois antes do século XIX esse tipo de ligação entre os casais era inexistente. Os casais pouco se viam e pouco interagiam fora se suas obrigações domésticas.

Facilitar a vida um do outro, fazer as coisas juntos tornou-se o lado moderno dos relacionamentos. E fidelidade passa a ser: de “você não pode me trair” para “você não pode se trair”.

18 de jul. de 2009

Dançando

Quando uma mariposa roda em torno da lâmpada, deve achar que a lâmpada foi feita para ela. Talvez nós sejamos assim também, sempre achando que algo de fora foi feito para nós. Quando não atendidos, estamos naquilo que Nietszche chama de registro do ressentimento.

O universo também pode ser um teatro de um escândalo total. Estamos aqui para dar trombadas uns nos outros, uns ficam, outros se vão. Esses choques entre elementos são absolutamente sem sentido, simplesmente acontece. Pode parecer que o nosso tempo tem algum significado, alguma ordem, mas numa escala maior de bilhões de anos fica claro que não temos importância. Deixar de existir não faz diferença. Isso é a visão darwinista do mundo.

Quando descobrimos que o nosso pai não é poderoso como pensávamos, então projetamos um novo pai onipotente, Deus. Essa foi a visão de Freud.

E quando criamos um ente para nele projetarmos nossas realizações enquanto ficamos alienados em nosso mundo real, esse ente é o Deus de Marx.

Todos esses quatro ícones previram, de alguma forma, o esvaziamento da religião.

Nesses tempos modernos, acabamos por criar fantasias para dar algum significado no vazio deixado pela religião. Faz parte da espécie humana buscar significado, inventar para sobreviver. Somos fruto de um córtex cerebral muito poderoso, que armazena muito estímulo externo e acaba por pensar muito mais do que devia.

Qual será o sinal de amadurecimento? Será perceber o abismo e, como pensava Nietszche, despencar nele dançando enquanto que a maioria o faz berrando?


11 de jul. de 2009

Na corda Bamba

O Menino é criado para ser forte e a menina é preparada para ser esperta. Esses supostos heróis, homens que as mães querem vencedores são um tipo de sonho materno muito diferente do que se espera e se ensina para meninas, que brincam desde cedo em ser gente grande. Elas amadurecem, eles devaneiam.

E sabe em que momento esse pobre homem comum vive o herói?
É no momento da (desculpe,,,) trepada. O que faz a diferença é o oculto do desempenho que satisfaz, e que logo (infelizmente) se vai.

Mas o jeito de ser um grande homem, será que é trepar muito? E quando nem trepando, nem sendo uma puta da internet, nem se travestindo de machão – e se não se tem mais mistério? ... só resta então trocar de parceiro. Criar um caso para voltar a ser desconhecido novamente.

“... o casamento com a Sandra acabou quando a gente tava tão afinado, que eu não tinha mais uma outra vida para fantasiar ... daí um dia num amasso, ela me olhou apenas e disse: eu te conheço ... – putz, estaca zero, identidade secreta desmascarada, eu tinha me tornado um nada. Às vezes a gente começa uma nova história apenas para se tornar desconhecido de novo ... “ (O homem da tarja preta)

Entrou na moda há uns 40 anos, a gente ter que contar tudo um pro outro, aí a gente conta tudo e acaba. Ser homem é terrível. Todos exigem uma resposta forte do menino diante da vida. “Seja homem, reaja!”. E deixam para a menina executar um tipo de violência cotidiana muito mais poderosa: quando ela não quer que alguém tenha lugar, esse alguém não terá lugar.

Ela corta o frango e dá o melhor pedaço e o pior pedaço para quem ela quer. Ela exige a caça e a proteção e em troca concede espaço, ou desconhecerá simbolicamente o outro mesmo que tenha de submeter-se à violência física do parceiro.

Uma informação para as mulheres: o homem corre atrás de ideais, e ele faz isso num mundo de devaneios silenciados cujo tamanho elas nem suspeitam. A revelação disso seria potencialmente catastrófica para a virilidade dele. Sim, o homem tem uma vida dupla, e por isso ele é mais distante da vida concreta do que a mulher, que tem uma relação com o aqui e agora mais presente. É o devaneio do que ele pensa que poderia ter sido e não foi.

A criação desse ideal veio das expectativas exageradas das mães, resultando na imagem dos provedores engravatados de escritório ou na sua contradição, o ideal do aventureiro -- sendo ambos os tipos desejados simultaneamente pelas mulheres.

Até que nos anos ’90 ocorre uma outra solução: a imagem de Gordon Gecko do filme Wall Street, onde se mostra que a ganância é uma coisa boa – “Greedy is good” -- agora é possível enriquecer na beira da lei, ser simultânemente aventureiro e provedor.

Ninguém disse, mas esse estouro da bolha também fez ruir essa solução dos ideais masculinos. E agora, o que nos restará? Afinal, quem quer ser mãe de Madoff?