18 de mai. de 2013

O Inferno de Dante

Na A Divina Comédia, escrita entre 1265 e 1371, o poeta italiano apresenta na forma de poema uma descrição detalhada do Inferno, do Purgatório e do Paraíso. No Inferno, Dante, guiado pelo poeta Virgílio, percorre locais onde os pecadores enfrentam punições pelo que fizeram em vida.

De acordo com a descrição de Dante, o inferno consiste em nove círculos concêntricos que se afunilam conforme ficam mais profundos, até chegarem ao centro da Terra. Para qual deles você é enviado depende do pecado cometido, com círculos destinados aos glutões, hereges e fraudadores. Sobre o ponto central superior, na superfície terrestre, está Jerusalém.

O portão do inferno de Dante tem a famosa inscrição "Abandone toda esperança aquele que por aqui entrar". O inferno está cheio de criaturas dos mitos pagãos. Dante vê centauros, o minotauro e o cachorro de três cabeças, Cérbero. Michelangelo inclui Caronte, o barqueiro dos rios Estige e Aqueronte que leva as almas dos pecadores para o inferno. 

Na Idade Média havia o senso comum de que o inferno estava localizado no subterrâneo terrestre, e havia lendas de pessoas que chegaram a ver sua fumaça saindo através de buracos no chão. Dante estava de acordo e por isso sua concepção coloca Satã na parte mais profunda do inferno, o nono círculo. Entretanto, para Dante, o demônio está imerso em gelo até a cintura e sempre enfrenta frio, mesmo no calor do inferno. 

Muito poucas dessas ideias provêm da Bíblia. O Livro Sagrado não faz referência ao inferno e às chamas – muitos dos detalhes de Dante foram inspirados pelos mitos gregos e romanos, e a vasta maioria das concepções mais recentes são fruto do imaginário medieval ocidental.

Almas traidoras mergulhadas no Lago Cócito.Para Dante, a traição estava entre os pecados mais graves.Ilustração Gustave Dore, século XIX

27 de abr. de 2013

Antes do pôr do sol

(canvas "Psyche Entering Cupid's Garden", by Willian Water House)
Uma amante jovem frequentemente tem pensamentos contraditórios em sua mente sobre seu parceiro: um, de que ele pode ser “o escolhido” que ela quer ter ao seu lado por toda a vida; dois, de que se isso não funcionar, sempre haverá alguém mais que poderá ocupar esse lugar exclusivo.

Mas é preciso alguma experiência de vida para perceber que há um número limitado e mínimo de pessoas com quem você realmente se “conecta” – com aquela linha que une além de toda timidez e embaraço. Vocês se dão toda liberdade para serem francos, mas respeitando um ao outro acima de tudo. E de uma forma mágica, depois de perdê-lo, você percebe o quanto será difícil substituí-lo -- que montes de detalhes são únicos e essenciais. É difícil explicar, mas ele “te pega” e você a ele.

Daí vem a contradição mais complicada: fantasias não existem, mas aí está ela, em frente à você: é complicado para essa cínica geração X lidar com isso. A geração dos bits e bites foi criada para não acreditar em contos de fadas e pessoas escolhidas, eternas. A coisa madura a fazer é aceitar uma profunda amizade, à despeito da desilusão que a liberdade do outro possa trazer. Isso é a coisa certa a fazer pois neste mundo cínico, o ideal não é real.

Então a vida segue. Relações vem e vão, várias circunstâncias aparecem para interferir, o pragmatismo vence e uma neblina baixa no horizonte. Conforto e rotina afastam a depressão de perceber que quando o dia termina e os dois tiveram a sua diversão simples e doce, então ambos encontram seu próprio canto para dormir.

Isso é ter 30 e tantos anos. A preocupação com a morte ainda não existe, mas o senso de mediocridade sim: é nisso que estou preso? Quando vou escrever um livro, ou fazer aquela pós, ou buscar aquele novo emprego? O que aconteceu? Pois não é o que planejei ...

Apenas umas poucas pessoas têm a sorte de permanecer com aquela alma gêmea: a maioria vagarosamente sufoca em cordas colocadas em seus próprios pescoços. A realidade dói, realmente. Mas tem que servir.

24 de mar. de 2013

Pensamentos de Alice

Anos depois, um monte de coisa mudou e um monte de coisa insiste em não mudar.

Numa peça que a Marcela estava ensaiando eu ouvi um ator dizer: "Em tempo algum teve um caminho tranquilo no verdadeiro amor".

E o que é o verdadeiro amor?

É a primeira paixão ingênua, inconsequente,
        ou um amor louco sem limites, agressivo,
           talvez o romance maduro, profundo, delicado.

Será que o verdadeiro amor
não pode ser tudo isso ao mesmo tempo?

Aí, quem quer casar com a senhora baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha? Só agora entendi a peça.

Ética do útil ou dos princípios?

Uma das soluções éticas, introduzidas pelos ingleses, defende a importância das consequências dos nossos atos -- ao invés de guiar-se por princípios ou pela virtude. A ação correta seria aquela que maximiza o bem estar e a felicidade de todos.

Por esse princípio torturar alguém para obter informação que evite uma ação terrorista, por exemplo, é considerado eticamente correto, embora por princípio a tortura seja condenável.

Jeremy Benthan, um importante utilitarista inglês, defendia ações diretas ou regras que resultassem na maior intensidade, duração, proximidade, continuidade e pureza de felicidade para todos. Embora isso possa ser difícil de medir com exatidão, é uma forma atraente de se pensar.

Mas um desafio interessante foi criado por Bernard Willians, chamado de "Pedro e os nativos". Suponha que você encontre um oficial cruel que aprisionou 20 nativos que promete matá-los a menos que você mate um deles e então ele soltaria os outros 19. O que você faria? Em nome de libertar 19 você mataria alguém inocente?
Pela regra do utilitarismo acima, sim. Mas, isso implicaria responsabilizá-lo pelos atos errados de outros quando você deixa de fazer algo terrível para contê-los, ou quando você faz algo para ajudar -- como salvar a vida de alguém -- mas que depois eventualmente revela-se um serial killer. Má escolha?

Somos diariamente confrontados com situações que nos levam a agir por princípios (religiosos, familiares etc dos latinos) e por outro lado temos uma pressão utilitarista por resultados, claramente a forma inglesa e americana de pensar (como claramente modelado pelos MBA americanos).

Afinal, parece que agir por princípios funciona melhor nas pequenas coisas da vida pessoal e a política do utilitarismo é mais útil em grandes projetos públicos e privados, onde se avalia os resultados pela média, num prazo mais longo.

14 de fev. de 2013

É você, e não a situação!


Um homem caminha pela rua e deixa cair seus papéis. Outro que vinha em sua direção simplesmente segue em frente e não oferece ajuda. Por que você acha que ele não parou para ajudar?

Se você responder "Bem, ele é uma pessoa individualista e não costuma ajudar estranhos", provavelmente estará cometendo um erro de atribuição.

As pessoas têm tendência a dar explicações baseadas num julgamento de personalidade, ao invés de avaliar fatores situacionais. No caso acima, você poderia avaliar a situação e dizer: "Bem, ele estava atrasado para uma reunião importante. Mas normalmente ele ajudaria."

Algo totalmente diferente acontece quando estamos explicando o nosso comportamento. Em geral costumamos inverter a atribuição: assumimos que nossas motivações e comportamentos são uma reação à situação e não devido à nossa personalidade.

A má notícia é que mesmo estando cientes disso, é muito difícil evitar esse erro. Até mesmo quando se trata de grupos, ele persiste: achamos que o comportamento das pessoas fora do grupo é motivado pela personalidade delas enquanto que decisões de nosso próprio grupo são devido à regras e restrições existentes para aquela situação. Esse comportamento tende a ficar mais intenso em situações de muita disputa e rivalidades.

20 de jan. de 2013

It'll Do



Será essa a verdadeira história romântica da maioria de nós lá na frente?
*
It's not romantic.
It's not the first time.
It isn't magic.
It isn't soulful.
It won't be true for me or you,
But it'll do.
It'll do.

It isn't heartful.
It isn't lovesick.
It won't be precious.
It won't be tender.
It's not a fairytale.
It wasn't heaven-sent,
But it'll do.
It'll do.

I'll pass the time with you,
Because it's so simple and sweet.
They'll be no hard times to get through.
Nothing to fear.
And when the day is done.
We have all had our fun.
We will both find a place to sleep.

I'm not a savior, I'm not a saint. 
I'm not a partner, I'm not a friend. 
I'm not a blessing, I'm not a gift.
I will not cry when this ends.
I'm not a muse to feed your soul.
But I'll do, for you.

You'll pass the time with me,
'Cause it's so dark and free.
It won't be good for me.
But it'll do.
(Lyrics by R. Yamagata)

6 de jan. de 2013

O que é diferente é perigoso?


Ambiguidade provoca ansiedade.

São três os caminhos que desenvolvemos para aliviar isso: o tecnológico, com suas engenhocas para dominar a natureza; as leis para nos proteger das incertezas de comportamentos alheios; e a religião, com suas forças superiores regulando nosso futuro.

Ambiguidade e incerteza não devem ser confundidas com aversão ao risco. A incerteza está para o risco assim como a ansiedade está para o medo. Risco e medo são dirigidos para eventos e objetos específicos, enquanto que a incerteza e a ansiedade não tem objeto claramente definido. Está mais para aquele aperto no estômago, duro de passar. Porém, assim que uma incerteza é expressa como risco ela deixa de ser fonte de ansiedade. É assim com tarefas rotineiras, como dirigir um carro ou certos esportes perigosos: são arriscados porém calculados.

É por isso que pessoas com aversão à incerteza e ambiguidade adoram estruturas e procuram, paradoxalmente, se engajar em comportamentos de risco só para diminuir a ansiedade.
Exemplo: um rapaz que começa logo uma briga arriscada, ao invés de sentar e esperar: isso tudo para reduzir a ansiedade do que poderá vir a acontecer se ele apenas aguarda os próximos eventos, incertos.

Ambientes com pessoas com forte aversão à incerteza tem várias características peculiares, sempre tratando o diferente como perigoso:
- há uma necessidade emocional para regras, mesmo que não sejam cumpridas;
- há uma necessidade de mostrar-se sempre ocupado;
- há necessidade de precisão e formalização nos acordos;
- há forte dependência de especialistas para buscar soluções;
- comandantes em geral estão mais envolvidos com tarefas diárias do que assuntos estratégicos;
- pessoas são fracas em inventar e mais focadas na implementação e entrega de alguma coisa;
- motivação existencial fortemente baseada na estima pelos outros.

19 de nov. de 2012

Talvez na próxima transgressão

Os mais velhos de nós foram criados ainda sob o paradigma de sociedade industrial, onde há uma ética do trabalho como vocação que dá identidade. A produção e acumulação são os fins em si mesmos, através de especializações bastante claras nas funções de cada um. Nesse mundo, faz todo sentido planejar e buscar a solução antecipada de problemas -- já que o funcionamento regular do mecanismo é a premissa de máxima eficiência social.

Contrastando com isso, estamos numa nova época fascinada pela aceleração na circulação e transformação de mercadorias e serviçoes em dinheiro e vice-versa através de um sistema de equivalência cada vez mais amplo. Torna-se necessário uma certa plasticidade, uma certa indeterminação em nós que vai abrir muito o leque de opções para obsolescência controlada dos símbolos de consumo.

E com uma hábil administração dessa insatisfação constante de todos com a situação presente é que se obtém o elemento fundamental do funcionamento social: esse consumo sempre acelerado e que faz o capital perder sua qualidade narrativa, dissolvendo os objetos em circulação de maneira incessante, anestesiante.
A única coisa real passa a ser a colisão inevitável do que circula cada vez mais rápido, num momento de crise, choque, dissolução, morte.

A administração de crises sucessivas é portanto o modo fundamental do novo tempo, o vetor que nos dá uma direção a seguir, uma recuperação redentora. Um gozo que só se encontra na transgressão, mas nem sempre completo desta vez. É necessário uma transgressão sempre maior.

Maybe next time, baby. (Crash, D. Cronemberg)

16 de nov. de 2012

A benção beneditina


O primeiro esforço para constituir uma mecanização desvinculada da forma antiga de massificação humana, feita pelos impérios desde as pirâmides até as construções romanas, veio com o cristianismo.

Pela primeira vez, foram adicionados valores morais e finalidade social ao trabalho, que transcenderam as soluções existentes baseadas na escravidão e no castigo de grandes contingentes humanos submetidos a profecias divinas ou a organizações militares. 

O lugar onde se viu mais claramente esta mudança foi com os cistercienses, depois chamados de beneditinos, que passaram a voluntariar um pequeno número de homens para dedicar-se aos monastérios, isso em torno do século VI. Esses homens estavam se retirando da confusão da civilização então decadente de grandes centros urbanos como Roma e Alexandria e estabelecendo um novo modo de vida dedicado à salvação de suas almas -- através de pequenas comunidades organizadas para atividades diárias com uma regularidade de performance e previsibilidade até então desconhecidas.

Entre as obrigações estavam as de rezar, obedecer aos superiores, aceitar a pobreza e vigiar a conduta dos outros segunda as rígidas regras do monastério. Dessa forma, foram se formando as bases do que até hoje seguimos em nossas atividades regradas e hierárquicas. Contrariamente ao que mostrou Max Weber, foi muito antes do Calvinismo que se formaram as bases do trabalho responsável como valor moral. Os beneditinos de fato criaram as bases para o trabalho regulado pelo tempo, até hoje simbolizado pela batidas dos sinos de relógios cristãos. 

Os trabalhos no monastérios eram variados e intercalados com períodos de descanso e meditação. Acredita-se que a mecanização de tarefas rotineiras com o auxílio de máquinas como moinhos tenha surgido aqui como forma de liberar esforço dos monges para as atividades mentais e religiosas que de outra forma seriam impossíveis ao trabalhador esgotado de outrora.

Embora rígida, a disciplina trazia seus benefícios: os monges tinham tratamento médico garantido, boa alimentação e assistência na velhice. Em troca, os monastérios foram importantes centros de desenvolvimento da cultura: trabalho, estudo e preces andavam juntos -- na busca de eficiência e perfeição que se tornariam base para o desenvolvimento do capitalismo.

3 de nov. de 2012

Profeta Andarilho


"Nenhum homem é profeta em sua própria terra".

Enquanto há, naturalmente, casos de pessoas que se mostram resistentes em aceitar lições e ajuda de estranhos, tal resistência é ainda mais evidente, como regra geral, naqueles para quem uma inovação é proposta por um vizinho ou parente, inovação essa a qual ele próprio não foi capaz de descobrir.

Se um colega de trabalho, vizinho ou colega de escola aparece com uma invenção ou descoberta cujo valor e qualidade são inquestionáveis, isso vai causar em mim uma inveja maior do que se a idéia nova vier de um estranho: pois neste segundo caso sempre será possível que eu me console pensando que o estranho teve oportunidades e experiências anteriores as quais eu não tive acesso e que foram importantes na sua descoberta.

Sua superioridade não será tão esmagadora como será reconhecer a descoberta de alguém do meu círculo, que me fará pensar: "Por que eu não pensei nisso antes? Como ele conseguiu isso antes de mim?"

Dessa forma, há um fator universal de reprimenda local contra quem se faz desigual através de um feito intelectual: com isso não é difícil imaginar que há um incentivo para o elemento criativo deixar o lar e migrar, não por genuína vontade de aventura ou ganhos, mas em busca de locais estranhos onde possa haver uma aceitação de suas descobertas.

Se considerarmos que a inovação contribui para a evolução das culturas e civilizações e que a mobilidade horizontal é fundamental para a dispersão do conhecimento novo, então a troca de ambiente em busca de melhores condições de reconhecimento pode ter suas raízes numa estratégia de luta contra a inveja do grupo local.