18 de jul. de 2009

Dançando

Quando uma mariposa roda em torno da lâmpada, deve achar que a lâmpada foi feita para ela. Talvez nós sejamos assim também, sempre achando que algo de fora foi feito para nós. Quando não atendidos, estamos naquilo que Nietszche chama de registro do ressentimento.

O universo também pode ser um teatro de um escândalo total. Estamos aqui para dar trombadas uns nos outros, uns ficam, outros se vão. Esses choques entre elementos são absolutamente sem sentido, simplesmente acontece. Pode parecer que o nosso tempo tem algum significado, alguma ordem, mas numa escala maior de bilhões de anos fica claro que não temos importância. Deixar de existir não faz diferença. Isso é a visão darwinista do mundo.

Quando descobrimos que o nosso pai não é poderoso como pensávamos, então projetamos um novo pai onipotente, Deus. Essa foi a visão de Freud.

E quando criamos um ente para nele projetarmos nossas realizações enquanto ficamos alienados em nosso mundo real, esse ente é o Deus de Marx.

Todos esses quatro ícones previram, de alguma forma, o esvaziamento da religião.

Nesses tempos modernos, acabamos por criar fantasias para dar algum significado no vazio deixado pela religião. Faz parte da espécie humana buscar significado, inventar para sobreviver. Somos fruto de um córtex cerebral muito poderoso, que armazena muito estímulo externo e acaba por pensar muito mais do que devia.

Qual será o sinal de amadurecimento? Será perceber o abismo e, como pensava Nietszche, despencar nele dançando enquanto que a maioria o faz berrando?


11 de jul. de 2009

Na corda Bamba

O Menino é criado para ser forte e a menina é preparada para ser esperta. Esses supostos heróis, homens que as mães querem vencedores são um tipo de sonho materno muito diferente do que se espera e se ensina para meninas, que brincam desde cedo em ser gente grande. Elas amadurecem, eles devaneiam.

E sabe em que momento esse pobre homem comum vive o herói?
É no momento da (desculpe,,,) trepada. O que faz a diferença é o oculto do desempenho que satisfaz, e que logo (infelizmente) se vai.

Mas o jeito de ser um grande homem, será que é trepar muito? E quando nem trepando, nem sendo uma puta da internet, nem se travestindo de machão – e se não se tem mais mistério? ... só resta então trocar de parceiro. Criar um caso para voltar a ser desconhecido novamente.

“... o casamento com a Sandra acabou quando a gente tava tão afinado, que eu não tinha mais uma outra vida para fantasiar ... daí um dia num amasso, ela me olhou apenas e disse: eu te conheço ... – putz, estaca zero, identidade secreta desmascarada, eu tinha me tornado um nada. Às vezes a gente começa uma nova história apenas para se tornar desconhecido de novo ... “ (O homem da tarja preta)

Entrou na moda há uns 40 anos, a gente ter que contar tudo um pro outro, aí a gente conta tudo e acaba. Ser homem é terrível. Todos exigem uma resposta forte do menino diante da vida. “Seja homem, reaja!”. E deixam para a menina executar um tipo de violência cotidiana muito mais poderosa: quando ela não quer que alguém tenha lugar, esse alguém não terá lugar.

Ela corta o frango e dá o melhor pedaço e o pior pedaço para quem ela quer. Ela exige a caça e a proteção e em troca concede espaço, ou desconhecerá simbolicamente o outro mesmo que tenha de submeter-se à violência física do parceiro.

Uma informação para as mulheres: o homem corre atrás de ideais, e ele faz isso num mundo de devaneios silenciados cujo tamanho elas nem suspeitam. A revelação disso seria potencialmente catastrófica para a virilidade dele. Sim, o homem tem uma vida dupla, e por isso ele é mais distante da vida concreta do que a mulher, que tem uma relação com o aqui e agora mais presente. É o devaneio do que ele pensa que poderia ter sido e não foi.

A criação desse ideal veio das expectativas exageradas das mães, resultando na imagem dos provedores engravatados de escritório ou na sua contradição, o ideal do aventureiro -- sendo ambos os tipos desejados simultaneamente pelas mulheres.

Até que nos anos ’90 ocorre uma outra solução: a imagem de Gordon Gecko do filme Wall Street, onde se mostra que a ganância é uma coisa boa – “Greedy is good” -- agora é possível enriquecer na beira da lei, ser simultânemente aventureiro e provedor.

Ninguém disse, mas esse estouro da bolha também fez ruir essa solução dos ideais masculinos. E agora, o que nos restará? Afinal, quem quer ser mãe de Madoff?

20 de jun. de 2009

Prazeres


Em Epicuro, filósofo que viveu em 300 a.C., encontramos uma ética voltada para a busca do prazer. Este é entendido como ausência de dor e de inquietação, a chamada aponia (dor do corpo) e ataraxia (dor da alma).

Sua filosofia aparece num momento da história onde a conquista da Grécia pelos macedônios inaugura uma época onde a vida privada supera a vida pública e as preocupações individuais na forma de “arte de viver bem” procuram buscar algum caminho de paz em meio às atribulações daquele período.

Muito do que ouvimos hoje em dia sobre busca da felicidade tem origem no Epicurismo, onde uma curiosa divisão dos prazeres proposto por Epicuro em sua Carta a Meneceu, nos mostra que muito antes do consumismo atual existir, o homem já enfrentava problemas para cuidar de sua vida.

Para garantir o atingimento da felicidade, Epicuro distinguiu entre prazeres naturais e necessários; prazeres naturais mas não necessários e prazeres não naturais e não necessários.

Estabeleceu depois que atingimos o objetivo desejado satisfazendo sempre o primeiro tipo de prazer, limitando-nos em relação ao segundo tipo e fugindo do terceiro.

Entre os prazeres do primeiro grupo, isto é, aqueles naturais e necessários, ele coloca unicamente os prazeres que estão estreitamente ligados à conservação da vida do indivíduo: estes seriam os únicos verdadeiramente válidos, porque subtraem a dor do corpo, como, por exemplo, comer quando se tem fome, beber quando se tem sede, repousar quando se está cansado e assim por diante.

Ao mesmo tempo, exclui do grupo o desejo e o prazer do amor, porque são fonte de perturbação. Entre os prazeres do segundo grupo, ao contrário, coloca todos os desejos e prazeres que constituem as variações supérfluas dos prazeres naturais: comer bem, beber bebidas refinadas, vestir-se com apuro e assim por diante.

Por fim, entre os prazeres do terceiro grupo, não naturais e não necessários, Epicuro coloca os prazeres vãos, isto é, nascidos das vãs opiniões dos homens, que são todos os prazeres ligados ao desejo de riqueza, poder, honras e semelhantes.

Os desejos e prazeres do primeiro grupo são os únicos que são sempre e habitualmente satisfeitos, porque têm por natureza um preciso limite, que consiste na eliminação da dor: obtida a eliminação da dor, o prazer não cresce ulteriormente. Os desejos e prazeres do segundo grupo já não têm mais aquele limite, porque não subtraem a dor do corpo, mas variam somente no grau do prazer e podem provocar notável dano. Os prazeres do terceiro grupo não tolhem a dor corpórea e, por acréscimo, produzem sempre perturbação na alma.

Com isso, ele afirmava que o único prazer completo é o prazer em repouso, espiritual, ligado ao prazer que se teve e na expectativa do que se prepara. Já que os prazeres do corpo são sempre misturados de febre e inquietação das sensações presentes, insaciáveis e apaixonadas.

30 de mai. de 2009

Liberdade da Incerteza


Uma perspectiva sociológica brilhante (vinda de um estudo de Mary Douglas chamado Purity and Danger) nos mostra a importância do viscoso: se um objeto que seguro é sólido, posso soltá-lo quando quero. Mas aqui está o viscoso invertendo os termos: meu ego é subtamente comprometido, abro as mãos, quero desfazer-me do viscoso e ele cola em mim, me puxa, me chupa... já não sou o senhor.

Se mergulho na água não experimento mal estar, pois sei que não vou dissolver-me: mas ao submergir no viscoso, como num barril de melaço, sinto que vou perder-me nele, tocar no viscoso é arriscar-se ser dissolvido na viscosidade, de ser invadido por um elemento do qual não há como fugir.

Assim, a viscosidade implica em perda de liberdade relativa ao outro, e sua intensidade depende das minhas próprias habilidades e recursos.

Pode-se esperar que quanto menos as pessoas controlem e possam controlar as suas vidas, bem como suas fecundas identidades, mais verão as outras como viscosas e mais freneticamente tentarão desprender-se dos estranhos que elas experimentam como uma indesejável substância.

Para alguns moradores seguros em suas casas à prova de ladrões em bairros bem arborizados, o “estranho” é tão agradável quanto uma praia na rebentação, e absolutamente não é viscoso. Esses estranhos dirigem restaurantes e vendem objetos de aspecto esquisito apropriados como assuntos de uma próxima festa. Esses estranhos são os que oferecem serviços que se pode comprar e dispensar. São fornecedores de prazer para o turista, para o patrão e para o cliente.

Muito diferente é a situação dos que não podem sair da área inútil, dos que experimentam o mundo como uma armadilha e não como um parque de diversão. Dos que têm que defender seu território sitiado através de rituais e estranhas vestimentas, inventando atitudes bizarras, quebrando normas, quebrando garrafas, janelas, cabeças.

Reagem desta maneira selvagem, furiosa e alucinada como se reage ao inutilizante poder do viscoso – pois a viscosidade sufocante dos estranhos é o reflexo de sua própria falta de poder.

24 de mai. de 2009

Pureza


A pureza é uma visão das coisas colocadas em lugares diferentes dos que elas ocupariam, se não fossem levadas a se mudar para outro – e é uma visão da ordem, em que cada coisa acha-se em seu justo lugar e em nenhum outro. O oposto da pureza, o sujo e imundo, são as coisas fora do lugar.

Não são as características intrínsecas das coisas que as transformam em sujas, mas tão somente sua localização em relação à ordem de coisas idealizada pelos que procuram a pureza. Um omelete maravilhoso num prato de jantar torna-se outra coisa se despejado sobre um travesseiro. Um prato aceitavelmente limpo enquanto se come torna-se repentinamente sujo quando terminamos a refeição.

Por muito tempo, o trabalho de purificação foi concebido como uma tarefa constante de ordenação, de manutenção do quadro, sob a premissa de ordem e progresso. Mas a pós-modernidade trouxe um deslocamento do quadro de pureza: agora a pureza significa mudar a maneira como as coisas se realizam, criar uma nova ordem que anuncia anormalidades o tempo todo. Os estranhos já não são mais a rotina de outrora, e uma angústia que se condensou no medo do estranho variável impregna a totalidade da vida diária.

Em nosso mundo, o mais severo teste de pureza é mostrar a capacidade de ser seduzido pelas infinitas possibilidades de constante renovação promovida pelo mercado consumidor, de vestir e despir identidades, de passar a vida na caça interminável de cada vez mais sensações e experiências. Nem todos passam por essa prova. Aqueles que não podem são a sujeira da pureza pós-moderna: são os consumidores falhos, incapazes de serem livres conforme o senso de liberdade definido pelo poder de escolha do consumidor. São o refugo do sistema que precisa ser mantido à distância, separados por muros em nome da lei e da ordem – que entretanto se abstém de intervenção na liberdade de consumidor.

Assim como os revolucionários eram impurezas da versão moderna da ordem, embora fossem na realidade seus mais ardorosos fãs, ao estenderem o esforço de colocar em ordem além da fronteira do que o mecanismo de colocar em ordem do Estado poderia permitir, a pós-modernidade também produz suas impurezas que no fundo são fãs ardorosos da mensagem pós moderna de liberdade de escolha: são os gatunos, furtadores de carros e seus alter-egos terroristas e grupos de punição sumária, todos representantes da revelação pós-moderna do descompromisso e livre competição.

23 de mai. de 2009

Imortalidade (Who wants to live forever?)

Cidade dos Imortais, de Jorge Luis Borges. Essa deve ter sido uma cidade não de quaisquer imortais, mas daqueles imortais que primeiro passaram pela experiência de ser mortal, aprenderam as habilidades que refletiam tal experiência e então, certo tempo depois, alcançaram a imortalidade. Deve ter sido chocante a descoberta de que tudo aprendido antes se tornou subitamente inútil e destituído de significado.

Encontravam-se agora jazendo nas covas rasas da areia, após abandonar o palácio que construíram no momento da descoberta da imortalidade: "desses lamentáveis buracos (...)emergiam homens barbudos e macilentos, de pele acinzentada e nus. (...) Não me espantou que eles não conseguissem falar e que devorassem serpentes."

Ser imortal é coisa comum. Com exceção do homem, todas as criaturas são imortais, pois ignoram a morte. O que é divino, incompreensível, é saber que se é imortal. Tudo, dentre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do perigoso. Dentre os Imortais, de outro lado, todo ato é o eco de outros que o precederam no passado, sem nenhum início visível. Nada pode acontecer apenas uma vez, nada é preciosamente precário.

Se a morte algum dia fosse derrotada, não haveria mais sentido em todas aquelas coisas que laboriosamente juntamos, a fim de injetar algum propósito nesta vida absurdamente breve. A cultura humana que conhecemos - as artes, a política, a intricada teia de relações humanas, ciência ou tecnologia - foi concebida no ponto do trágico, mas fatal, encontro entre o período finito da existência física humana e a infinitude da vida espiritual.

16 de mai. de 2009

Turistas e vagabundos


O eixo da estratégia de vida pós-moderna não é fazer a identidade deter-se - mas evitar que se fixe.

Turistas que valem o que comem são os mestres supremos da arte de misturar os sólidos e desprender o fixo. Antes e acima de tudo, eles realizam a façanha de não pertencer ao lugar que podem estar visitando: é deles o milagre de estar dentro e fora do lugar ao mesmo tempo.

Os turistas iniciam suas viagens por escolha - ou, pelo menos, assim eles pensam. Eles partem porque acham o lar maçante ou não suficientemente atrativo, demasiadamente familiar e contendo dema­siadamente poucas surpresas, ou porque esperam encontrar em outro lugar uma aventura mais excitante e sensações mais intensas do que a rotina doméstica jamais é capaz de transmitir.

A decisão de abandonar o lar com o fim de explorar terras estranhas é positivamente a mais fácil de tomar pela confortadora percepção de que sempre se pode voltar, se for preciso. Os incômodos dos quartos de hotel podem, de fato, provocar nostalgia, assim como consola e recompensa recordar que há uma casa - em algum lugar - um refúgio do tumulto e em que a pessoa pode abrigar-se. O momento em que a porta é trancada do lado de fora, o lar se toma um sonho. O momento em que a porta é trancada do lado de dentro, ele se converte em prisão. O turista adquiriu o gosto pelos espaços mais vastos e, acima de tudo, completamente abertos.

Mas nem todos os viajantes estão em movimento por preferirem estar em movimento a ficar em seu lugar. Para eles, estar livre significa não ter de viajar de um lado para o outro. Ter um lar e ser permitido ficar dentro dele. São esses os vagabundos, luas escuras que refletem o brilho de sóis brilhantes, os mutantes da evolução pós-moderna, os refugos inaptos da brava espécie nova. Os vagabundos são os restos do mundo que se dedicaram aos serviços dos turistas. Os turistas viajam porque querem; os vagabundos, porque não têm nenhuma outra escolha.

Turistas e vagabundos são as metáforas da vida contemporânea. Uma pessoa pode ser (e freqüentemente o é) um turista ou um vagabundo sem jamais viajar fisicamente para longe.
Estamos todos - de uma forma ou de outra, no corpo ou no espírito, aqui e agora ou no futuro antecipado, de bom ou de mau grado - em movimento; nenhum de nós pode estar certo de que adquiriu o direito a algum lugar uma vez por todas, e ninguém acha que sua permanência num lugar, para sempre, é uma perspectiva provável. Onde quer que nos aconteça parar estamos, pelo menos, parcialmente deslocados ou fora do lugar.

A oposição entre os turistas e os vagabundos é a maior, a principal divisão da sociedade pós-moderna. Estamos todos traçados num contínuo estendido entre os pólos do "turista perfeito" e o "vagabundo incurável" - e os nossos respectivos lugares entre os pólos são traçados segundo o grau de liberdade que possuímos para escolher nossos itinerários de vida.

A liberdade de escolha, é de longe, na sociedade pós-moderna, o mais essencial entre os fatores de estratificação. Quanto mais liberdade de escolha se tem, mais alta a posição alcançada na hierarquia social pós-moderna. As diferenças sociais pós-modernas são feitas com a amplitude e estreiteza da extensão de opções realistas.

Mas o vagabundo é o alter ego do turista - exatamente como o miserável é o alter ego do rico, o selvagem o alter ego do civilizado, ou o estrangeiro o alter ego do nativo. Ser um alter ego significa servir como um depósito de entulho dentro do qual todas as premo­nições inefáveis, os medos inexpressos, as culpas e autocensuras secretas, demasiadamente terríveis para serem lembrados, se despejam; ser um alter ego significa servir como pública exposição do mais íntimo privado, como um demônio interior a ser publicamente exor­cizado, uma efígie em que tudo o que não pode ser suprimido pode ser queimado. O alter ego é o escuro e sinistro fundo contra o qual o eu purificado pode brilhar.

Pode-se viver com as ambigüidades da incerteza que saturam a vida do turista só porque as certezas da vagabundagem são tão inequivocamente asquerosas e repugnantes. O turista precisa de uma alternativa cuja contemplação é pavorosa demais para se manter repetindo, nas horas de tensão, que "não há nenhuma alternativa".

Os vagabundos, as vítimas do mundo que transformou os turistas em seus heróis, têm, afinal, suas utilidades. Como os sociólogos gostam de dizer, eles são "funcionais". É difícil viver em suas imediações, mas inconcebível viver sem eles.

É a sua evidente infelicidade que inspira os outros a agradecerem a Deus, diariamente, por tê-los feito turistas.

9 de mai. de 2009

Super Masculino


O masculino muda no tempo. Assim como o seu sofrimento, que após os movimentos feministas puderam ser desassociados dos sofrimentos da humanidade, como guerras, sub-empregos, pobreza, e passam a existir como sofrimentos do gênero masculino: medo, impotência, aposentadoria.

Mas enquanto a maior assertividade da mulher é positiva, a aproximação do homem de uma maior passividade é percebido como uma perda – a figura do homem atraente ficou entre James Bond que nunca criou filhos e o provedor ainda requisitado pelas mulheres.

O sensível não é atraente e a interferência do homem no lar, reino da mulher, não é bem visto por elas. O modelo familiar estruturado após a era industrial ainda persiste em muitos aspectos, procurando dar um caminho a todos os casamentos. Senão, quantas mulheres acham natural um homem que goste de ficar com os filhos e que comande o lar?

Não. Este homem é um incômodo. É um homem que não sabe fazer as coisas direito, sob o ponto de vista das mulheres. Ele frustra as expectativas de ser provedor submisso e apenas colaborador, deixando-a livre para expandir-se.

Enquanto isso, homens continuam fingindo que são mais poderosos e potentes do que são, com seus carrões e conquistas substituindo muita falta de conversa e sinceridade sobre as coisas de homem, entre homens (algo além de política e futebol). Será que essa recusa de discussão é uma forma de tentar mostrar superioridade a elas? Ou ainda estamos na pré-história na tematização de nossos problemas?

Nisso foi sublime Fernando Pessoa, que tão bem soube captar o masculino em seu Poema em Linha Reta:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
(...)
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

1 de mai. de 2009

Pós Feminismo?


Vários constrangimentos que existiam para as mulheres antes dos anos ’70 se foram: o medo do ‘chá de cadeira’ nas festas, o uso obrigatório das desconfortáveis cintas-liga, os sapatos apertados, o medo de ser chamada de ‘galinha’.

Mas o capitalismo, na sua habilidade de leitura e incorporação transformou várias conquistas das mulheres em mercadorias, vendidas nos salões de beleza e nas cirurgias plásticas e trouxe outros tipos de amarração. Antigas expressões de liberdade transformaram-se em modernas composições de estilo, que são expressões do mercado – silicone, cortes de cabelo, medidas do corpo.

Se por um lado houve uma naturalização do sistema social, certamente também houve uma queda de projetos da mulher atual, em contraste com a mulher dos anos ’70.
O culto da individualidade imposto a todos coloca então uma questão: onde está a nossa resistência a isso? Se pessoas estão desconfortáveis com essas imposições do mercado, por quê essa relativa apatia?

Se a tendência do capital é crescer e concentrar-se, e se apenas a política pode se opor a isso, então nosso diálogo fora desse sistema é importante e talvez o único caminho para ultrapassar a mediocridade das mensagens da grande mídia que age sob o capital.

10 de abr. de 2009

Tempo Veloz


Reencontrei o Veloz. Prometi a ele que não faria aquela coisa de mau gosto, aquela coisa de colocar lado a lado foto antiga e foto recente. Prá que comparar? Sim, ele já não é mais o mesmo de antes. Nenhum de nós é. Pois o tempo risca fininho a face e se não pega a gente por trás acaba pegando pela frente: a gente começa a dar defeito até o defeito final.

Enquanto isso, eu me lembro do Veloz moderno: ordem, agenda, se não tem ocupação quer dizer que deu errado. Aí vem o tempo e nos mostra que estamos na verdade andando sobre uma fina casca de gelo em que podemos afundar tanto ficando parados como correndo. Prá onde ir afinal?

Adormecemos e um barulho à noite nos faz acordar com a parede do quarto quebrada, do outro lado uma barulheira enorme, gente andando prá lá e prá cá. Andando em passarelas fininhas sobre um abismo enorme. Algumas andam levemente, voando, outras já têm maior dificuldade e vão se equilibrando – algumas de fato caem e vão tão fundo que nem escutamos o barulho quando chegam no fim da linha. Caem fundo com sua personalidade, essa coisa pesada, traumática.

Aí aparece o Veloz pós-moderno, que não mostro em foto. O pós-moderno teve tempo para aprender coisas e começar a voar pela passarela fininha, ciente do abismo. Ciente que estamos num espaço vazio, que não temos mais um lugar moderno prá ir – ao invés disso pode-se andar para qualquer lado, seguir qualquer um. Prá que acreditar em algo por mais de 2 horas?

Esse Veloz moderno da foto foi um sonhador, com uma juventude que trouxe sonhos e que depois os levou. Sonhos de que o feminino saberia lidar com a sensibilidade e fraqueza do companheiro masculino – mas a mulher não sabe. Está ótima, independente e só. E começando a dar defeito...