12 de mai. de 2012

Individualidade




Nosso conceito de individualidade tem um significado diferente do conceito norte-americano, que é mais democrático e requer igualdade de condições.

Nós precisamos que o valor intrínseco da pessoa seja reconhecido como caráter distintivo. Por isso enquanto que para o norte-americano a individualidade repousa na igualdade de oportunidades, para nós está arraigado à noção de singularidade baseada na diferença entre indivíduos.

Nossa noção de singularidade mostra suas raízes na alma católica ou no anjo da guarda de Kardec e tornou-se ligada à dignidade da pessoa. Isto significa que alguém guiado pelos próprios valores pode ser mais bem visto que alguém que tolera insultos para se conformar à sociedade.

Nossa  singularidade é expressa basicamente no livre arbítrio da pessoa. Desta forma, a paixão é o manto que revela a liberdade de escolha porque ela desafia a racionalidade. Além disso, se a paixão corteja a tragédia, ela coroa a abnegação do indivíduo não dando bola para o utilitarismo. A falta de recompensa na decisão é valorizada, pois revela que a escolha veio do livre-arbítrio divino.

Essas escolhas têm importantes implicações. Um executivo norte-americano desafia abertamente a opinião de outro e isso não ofende. Por aqui a coisa é diferente, porque isso ameaça a dignidade da individualidade, como um toureiro que perde a tourada. Desta forma, é apenas no seu círculo mais íntimo que nos sentimos à vontade porque aí é onde a individualidade não será ameaçada e mesmo uma postura menos ritualizada será aceita sem censura.

Do lado de fora deste círculo é necessário aprender uma elaborada forma de ritual que garanta a individualidade da contraparte. Desde o vendedor que afirma a singularidade de seu cliente através do discurso de "status diferenciado", até as diversas reuniões e confraternizações onde se personalizam as relações.

Essa personalização é o que explica como nós conseguimos tecer uma rede de relacionamentos que suporta nossa tremenda desigualdade de poder e recursos.

27 de abr. de 2012

Leitura


Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: apenas repetimos seu processo mental, do mesmo modo que um estudante, ao aprender a escrever, refaz com a caneta os traços já feitos por seu professor.
Quando lemos somos dispensados em grande parte do trabalho de pensar: nossa cabeça torna-se arena de pensamentos alheios.

Em consequência disso, quem lê muito e quase o dia todo, mas nos intervalos passa o tempo sem pensar em nada, perde gradativamente a capacidade de pensar por si mesmo -- como alguém que de tanto cavalgar, acabasse desaprendendo a andar. Pois a leitura contínua retomada de imediato a cada momento livre, imobiliza o espírito mais que o trabalho manual contínuo, já que é possível entregar-se a seus próprios pensamentos durante esse trabalho.

Se alguém que lê continuamente, sem parar para pensar, o que foi lido não cria raízes e se perde em grande parte. Os pensamentos postos em papel não passam, em geral, de um vestígio deixado na areia por um passante: vê-se bem o caminho que ele tomou, mas para saber o que ele viu durante o caminho é preciso usar os próprios olhos.

2 de nov. de 2011

Carta a Overbeck

A Franz Overbeck
[carimbo postal: Sils-Maria, Engadin, 30 de julho de 1881]

Estou totalmente estupefato, maravilhado! Tenho um precursor, e que precursor! Eu não conhecia quase nada de Spinoza: que eu seja agora impelido a ele, foi um "ato instintivo".

Não só sua tendência geral é a mesma que a minha — fazer do conhecimento o mais potente dos afetos —, como me reencontro em cinco pontos capitais de sua doutrina; esse pensador, o mais fora da norma e solitário, é-me nesses aspectos justamente o mais próximo: ele nega a liberdade da vontade; os fins; a ordem moral do mundo; o não egoísmo; o mal.

Ainda que as divergências sejam também certamente enormes, elas se devem mais à diferença do tempo, da cultura e da ciência. In summa: minha solidão, que, como sobre o cume de elevadas montanhas, tantas e tantas vezes tornou minha respiração dificil e me fez sangrar, é, ao menos agora, uma "dualidão".

Estranho! Aliás, meu estado não corresponde de forma alguma às minhas esperanças. Aqui também um tempo incomum! Mudança incessante das condições atmosféricas! Isso me obriga mais uma vez a deixar a Europa! Preciso de um céu puro por meses a fio, senão não consigo avançar. Já tive seis graves crises de dois a três dias!! — De coração, seu amigo
Nietzsche.

25 de set. de 2011

Máscara

Chega-se a um país estranho, de língua desconhecida. Várias pessoas em volta estão a falar e quanto menos se entende, mais se supõe. Teme-se hostilidade. Fica-se descrente, a salvo, porém um pouco decepcionado quando as palavras estranhas são traduzidas. Quão inofensivas e inocentes! Toda língua desconhecida é uma máscara acústica: tão logo compreendida, ela se torna um rosto interpretável e, em pouco tempo, familiar.

"Eu sou exatamente o que você está vendo", diz a máscara, "e, por trás disso, tudo o que você teme."

11 de set. de 2011

Riso e queda


A risada já foi reprovada como algo vulgar porque quando se ri abre-se bem a boca, desnudando os dentes. É certo que, em sua origem, o riso encerra a alegria pela presa ou comida que parece segura.

Ao cair, o homem lembra o animal ao qual caçava e abatia. Todo o tombo que provoca o riso lembra o desamparo daquele que tombou; se se quisesse poderia tratá-lo como uma presa. Não se haveria de rir se, avançando-se nessa sequência de acontecimentos, efetivamente se incorporasse quem caiu. Ri-se em vez de comê-lo.

É a comida que nos escapa que estimula o riso -- esse súbito sentimento de superioridade, como já afirmou Hobbes. Os animais não riem, e nem tampouco renunciam a qualquer comida que esteja ao seu alcance, se de fato a desejam.

28 de ago. de 2011

Acossamento


A massa de acossamento forma-se tendo em vista uma meta que se pode atingir rapidamente: matar. A concentração no matar é insuperável. Todos querem participar, comprimem-se perto da vítima para golpeá-la ou no mínimo vê-la sendo golpeada. A vítima nada pode fazer e não apresenta riscos para a massa, muito mais potente que ela. Além disso a vítima acolhe a ameaça de morte que ronda a todos na vida: essa ameaça parece ser desviada de cada um para o sacrifício de uma vítima.
Logo após o ato, desfaz-se rapidamente a massa, em fuga. É como se a morte estivesse de novo à ronda de todos, ainda mais sagaz.
A repugnância ao matar coletivamente é assaz moderna. Ainda hoje, pelos jornais todos participam de execuções públicas. Mais confortável, sentado em casa, o homem pode deter-se nos detalhes da execução que mais lhe interessam.

19 de fev. de 2011

Contrato de vida

O homem busca ser perpétuo, se tiver poder para tal: ele busca expandir-se nas formas disponíveis a ele. No homem primitivo, as figuras de poder como deuses e bruxas eram temidas pelo seus poderes mágicos e já faziam o papel de engrandecimento do homem pela via do escapismo noutra figura considerada muito mais importante que ele. Gradualmente, essas figuras tornaram-se pessoas: reis e padres da Idade Média, absolutos em poder. Mas neste caso, a imortalidade era a deles às custas do massacre de seus fiéis na guerras e sacrifícios escravos.

Como o homem pretende ser um sobrevivente, não importa se ele próprio ou a figura de seu adorado rei, só o que muda ao longo dos tempos é a figura de adoração: a arte, o estado poderoso, a bolsa de valores.

É através de diferentes estruturas sociais e acordos culturais que vemos sempre a mesma razão de ser: um contrato de vida sobre a morte em diferentes roupagens.

3 de abr. de 2010

Onde mora a religião?

Por uma dificuldade de terminologia associamos a palavra religioso a sistemas teísticos, pensados como sendo centralizados em torno de um Deus. Mas as necessidades do homem de buscar orientação variam largamente no conteúdo e na forma, desde sistemas ateístas como o Budismo até sistemas primitivos como o animismo e o totemismo. Em comum a todos eles e com os sistemas religiosos temos a busca por uma estrutura de orientação e devoção.

Dessa forma, aspirações ditas religiosas compartilham das mesmas necessidades de busca de respostas que aspirações seculares de sucesso, prestígio e devoção a sistemas ditatoriais e políticos. Isso é de tal forma intenso que a maioria das pessoas acredita no monoteísmo, ao passo que sua devoção real pertence muito mais a sistemas próximos ao totemismo e da idolatria do que a qualquer modalidade de cristianismo.

A necessidade de orientação e devoção é comum aos homens: o que varia é a forma e o conteúdo. Essas diferenças denotam o grau de evolução: a pessoa amadurecida vai escolher um sistema produtivo e racional; outras vão reverter a sistemas primitivos e irracionais que acabam por prolongar sua dependência e irracionalidade. Elas permanecerão no nível que a humanidade já superou a milhares de anos.

27 de mar. de 2010

Fui enganado por mim!


A supressão do raciocínio crítico geralmente começa cedo. Uma menina de cinco anos de idade, por exemplo, pode reconhecer a insinceridade da mãe, seja percebendo su­tilmente que, embora esta esteja sempre falando de amor e amizade, é na realidade fria e egoísta, ou de forma mais rude ao notar que a mãe está tendo uma aventura com outro homem ao mesmo tempo que está constantemente salientan­do seus elevados padrões morais.

A filha percebe a discre­pância. Sente-se ferida em seu senso de justiça e verdade, mas, dependendo da mãe que não admitirá qualquer embate, e, digamos, tendo um pai fraco em quem não pode con­fiar, vê-se obrigada a suprimir sua percepção crítica.

Bem depressa ela não mais notará a insinceridade ou infidelidade da mãe. Perderá sua capacidade de raciocinar criticamente, pôsto que lhe parecerá ao mesmo tempo inútil e perigoso con­tinuar fazendo-o.

Por outro lado, a criança fica impressio­nada com o padrão de ter de acreditar que a mãe é sincera e decente e que o casamento de seus pais é feliz, e pronta­mente aceitar esta idéia como se fosse sua.

Poderíamos seguir citando muitos mais casos da vida diá­ria em que as pessoas aparentam tomar decisões, aparentam querer algo, mas na verdade seguem a pressão interna ou externa de "ter de" querer aquilo que vão fazer.

Em ver­dade, ao observar o fenômeno das decisões humanas fica-se chocado pelo grau em que as pessoas se enganam ao consi­derar como decisão "delas" o que é, com efeito, uma submis­são a convenções, ao dever ou a uma simples coação.

Chega quase a parecer que a decisão "original" é um fenômeno rela­tivamente raro em uma sociedade que se imagina fazer da decisão individual a pedra angular de sua existência.

23 de jan. de 2010

Agressão Santa


O líder nos permite expressar impulsos proibidos e desejos secretos. Há lideres que nos seduzem porque não parecem ter os conflitos que temos. O líder elimina o terror e permite que nos sintamos onipotentes.

Muitas vezes a importância do líder vem do fato de que é ele quem realiza o mágico ato iniciador: pode ser qualquer coisa, desde um juramento até um ato sexual ou assassinato.

A lógica desse ato é que aquele que primeiro cometer um assassinato é o assassino; todos os outros são seguidores.

Atos que são ilegais para o indivíduo podem ser justificados se todo o grupo partilhar da responsabilidade por eles (Freud, Totem e Tabu).

Aquele que inicia o ato assume o risco e a culpa. O resultado é realmente mágico: cada membro do grupo pode repetir o ato sem culpa. Eles não são culpados, só o líder é. A participação no grupo redestila a realidade cotidiana e dá a ela uma aura de sagrado.

Tudo isso nos leva a refletir melancolicamente sobre como o homem médio é não-heroico, mesmo quando segue heróis. Ele simplesmente os sobrecarrega com sua bagagem usando os líderes como desculpa. (foto acima é referência à famíla Manson)