10 de nov. de 2007

Soberba


O transporte de conceitos biológicos para a sociologia foi muito conveniente na época do expansionismo europeu. Em particular, o darwinismo social foi usado como explicação para a evolução dos povos. Segundo essa idéia, a seleção natural pressiona no sentido obrigar o aperfeiçoamento social para garantir a sobrevivência. Nada mais errado e injusto, ao ignorar que, diferentemente do reino animal onde a teoria aplica-se perfeitamente, no reino social há uma incrível habilidade de transformação e adaptação da cultura, o que faz a regra da seleção natural aplicar-se de maneira especial e relativa.

Entretanto, os europeus inspirados nessa concepção evolucionista, consideravam a África e a América como fósseis vivos, prontos a serem resgatados para um nível de maior evolução. Isso veio junto com um argumento religioso de resgate sagrado através da subordinação à Igreja Católica. Com isso, justificava-se o colonialismo da Europa no resto do mundo. Havia um otimismo na época com relação ao progresso material que a industrialização estava trazendo, embora acompanhados de constantes conflitos sociais. Foi daí que surgiu, dos pensadores sociais positivistas, a noção de “ordem e progresso”.

Desta forma, o progresso seria o princípio que leva a evolução das sociedades, da mais simples à mais complexa, da menos avançada à mais evoluída. A ordem procuraria ajustar todos os indivíduos às condições estabelecidas, garantindo o funcionamento social. Os movimentos reivindicatórios, os conflitos, as revoltas deveriam ser contidos sempre que pusessem em risco a ordem estabelecida.

Esses princípios continuam em voga até os dias de hoje, quando intervenções do mundo desenvolvido sobre nações mais pobres baseiam-se na justificativa de estarem libertando essas nações de forças conservadoras, implantando modelos mais avançados de vida política e econômica. Dessa forma, partindo de uma visão pré-concebida do que seja melhor e mais avançado, nos damos o direito de intervir em outros grupos, sem refletir que a essência do que é adequado para elas depende de seu conceito e histórico cultural.

Essa questão de como se processa a evolução histórica dos povos tem sido tratada há séculos por diversos autores, mas algo soa sempre comum: a questão de como manter um caminho aberto para o desenvolvimento versus a tentação de encampar um grupo tecnologicamente menos evoluído (e não por isso menos feliz...) como vassalos do dominador.

Essa armadilha do conhecimento é frequente e até mesmo uma simples ação de transferência de conhecimento envolta em um argumento solidário de aprimoramento cultural pode (e frequentemente faz) criar fortes laços de dependência que, no fundo são a intenção e a soberba do intelectual (e o modo de vida de qualquer bom consultor).

Nenhum comentário: